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BRASIL, Sudeste, Mulher, de 26 a 35 anos



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Bem. Inicio este blog por onde haveria mesmo de comerçar: resumidamente apresentando-o e explicando o porquê de nele conviver textos anteriores aos da proposta atual.

Como devem ter lido, o blog não é recente. Foi criado para conter pensamentos sobre assuntos diversos e não especificamente o universo infantil. Seu título era "noves fora", e, hoje, para mim, o saldo de tudo quanto aqui até então fora dito não poderia ter sido outro, não zero.

Naquela época em que o criei, tinha acabado de descobrir esta ferramenta chamada "blog" e não pude conter a vontade de escrever, que, aliás, diga-se de passagem, é antiga. 

Porém, ao longo destes anos, não consegui manter uma certa linearidade na escrita. Acho que sou dessas pessoas que não consegue se expressar em crise.

Então, resolvi aproveitar o espaço já criado para trabalhar assuntos pelos quais me interesso, até como forma de me aperfeiçoar e, quiça, me encontrar.

Não apaguei os arquivos antigos, porque, se hoje não fazem sentido e até deles me envergonho, guardo-os para o futuro, para que um novo olhar amadurecido pelo tempo lhes dê o significado possível.

Nasce, portanto, agora, um novo blog, totalmente diferente do anterior, onde pretendo abordar assuntos relacionados à literatura infantil, especialmente audio e ilustração, pedagogia, psicologia, comportamento, cidadania, brincadeiras, relacionamentos social e familiar, escolas, etc. O objetivo é audacioso, e por isso já vale o percurso: resgatar a sensibilidade, criatividade e inteligência de nossas crianças, por meio de uma educação saudável, em que o centro do apreendizado é o ser humano em sua tridimensão de indivíduo, natureza e sociedade, e a comunicação, elemento fundamental de existência do ser.

O espaço encontra-se aberto para colaborações, que certamente o enriquecerão, seja pelo debate a ser promovido, seja pelo conteúdo a ser integralizado.

Grata, 



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 18h56
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"Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenininha, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço da aula de matemática, comprar um sapato novo que eu não agüento mais o meu. Vontade assim todo mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras – as três que de repente vão crescendo e engordando toda vida – ah, essas eu não quero mais mostrar. De jeito nenhum.
Nem sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje to achando que é a vontade de escrever." Do livro "A bolsa amarela", de Lygia Bojunga.



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 17h57
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Hoje encerro este blog para iniciar um novo sobre educação infantil. O título do blog também será alterado para "Terra do Nunca" e os temas abordados serão restritos a este universo: literatura, pedagogia, psicologia.

 

 



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 17h23
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RECOMEÇAR

Enfim, vida nova. Ano novo sempre promete vida nova. É por isso que gosto tanto da chegada do fim do ano. Ainda bem que os homens criam marcos para que se possa recomeçar, ou, pelo menos, viver a impressão disso.

Este ano será diferente. Sim, sei que para todos os anos a frase é a mesma, mas agora é pra valer. Tropecei numa pedra, o tombo foi grande e o susto maior ainda. Preciso retomar meus pequenos prazeres, minha alma esquecida, meus desejos, fugir deste amontoado de coisas inúteis. Quero uma vida tranquila, vazia, quase nada, poucos amigos, muita leitura, música, sentir-me útil, aprender, colecionar os melhores vídeos, cuidar de flores, dançar, tocar, amar. Se algum tempo sobrar, trabalho. Afinal, ninguém é de ferro mesmo.

 

 



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 19h02
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Estou no hospital. Internada por causa de uma pneumonia. É noite, ouço boa música e reflito sobre a vida. Há pausas que vêm em bom tempo.

Por que, pergunto-me, é tão difícil fincar os pés no chão para que escolham o caminho? Não quero me sentir folha. Desejo o oposto do que escolhi. Escolhi? Onde estavam as opções naquele momento? Não as percebi. Estavam lá? 

Sou uma alma sempre a assistir ao próprio corpo precipitar. Covarde, incapaz do último gesto de salvação. Nela se encerram desejos mais caros, mas também medos mais profundos.

O encontro evitado é a expressão da felicidade temida. No fundo talvez pense que a felicidade seja o fim, e por isso prefiro ficar no limiar do gozo, ocupando-me do distanciamento necessário.

Quanto tempo para se dar conta do abismo criado, porque felicidade é coisa que não se controla. Vive-se ou não, só isso. 



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 23h24
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Exageros de Mãe

Millôr Fernandes


"Já te disse mais de mil vezes que não quero ver você descalço. Nunca vi uma criança tão suja em toda a minha vida. Quando teu pai chegar você vai morrer de tanto apanhar. Oh, meu Deus do céu, esse menino me deixa completamente maluca. Estou aqui há mais de um século esperando e o senhor não vem tomar banho. Se você fizer isso outra vez nunca mais me sai de casa. Pois é, não come nada: é por isso que está aí com o esqueleto à mostra. Se te pegar outra vez mexendo no açucareiro, te corto a mão. Oh, meu Deus, eu sou a mulher mais infeliz do mundo. Não chora desse jeito que você vai acordar o prédio inteiro. Você pensa que seu pai só trabalha pra você chupar Chica-Bon? Mas, furou de novo o sapato: você acha que seu pai é dono de sapataria, pra lhe dar um sapato novo todo dia? Onde é que você se sujou dessa maneira: acabei de lhe botar essa roupa não faz cinco minutos! Passei a noite toda acordada com o choro dele. Eu juro que um dia eu largo isso tudo e nunca ninguém mais me vê. Não se passa um dia que eu não tenha que dizer a mesma coisa. Não quero mais ver você brincando com esses moleques, esta é a última vez que estou lhe avisando."


Texto extraído do livro "'10 em Humor", Editora Expressão e Cultura - Rio de Janeiro, 1968, pág. 15.



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 22h01
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Para Sempre (Drummond)

"Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho."


Escrito por Mirella de Almeida Teles às 21h36
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"No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves."

(Eugênio de Andrade)



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 21h30
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Coisas endêmicas do nosso Brasil

Fico indignada com coisas que penso somente acontecer neste país. 

Recentemente, meu irmão inaugurou uma loja de móveis planejados. Entusiasmado com a nova empreitada, decorou o espaço, criou os ambientes e investiu uma nota preta em propaganda. Em uma revista especializada em decoração, viu seu anúncio de uma página publicado e pensou: investimento bom e necessário.

O retorno não tardou a acontecer, para sua sorte. Um distinto senhor, que se disse arquiteto, telefonou interessado na confecção de um móvel que seria utilizado numa rede de hotéis construída no nordeste brasileiro por um investidor português. Caso aprovado o piloto, seriam 700 as peças a serem adquiridas para a cidade de São Luis do Maranhão.  

A sorte, no entanto, teve sua reviravolta, depois de um trabalho exaustivo (lembro-me de que, no dia de seu aniversário, enquanto os convidados já o aguardavam para a comemoração, ele ficara até mais tarde na loja, para concluir a feitura do móvel, que deveria ser entregue em Ribeirão Preto, no dia seguinte).

Meu pai, que foi entregar a peça, desconfiou do homem responsável por seu recebimento. Era um sujeito mal ajambrado, de jeito pouco familiar as artes do negócio. O local combinado também não condizia com o nível da relação iniciada pelo representante do investidor no país.

O arquiteto, após receber o móvel, tornou a ligar. Pediu que meu irmão fosse a São Luis do Maranhão. O negócio estava praticamente certo. Meu irmão pediu os dados da empresa interessada na compra das peças. O negociante desconversou. No entanto, forneceu-lhe os próprios dados: nome completo, RG e CPF. De posse desses, fez uma pesquisa no sistema cadastral e, para sua surpresa, as informações eram inválidas. 

Dirigiu-se a uma delegacia. Descobriu que o distinto homem era um estelionatário. Desde 1973 aplicava golpes no comércio, todos exatamente idênticos ao engendrado em meu irmão. O delegado disse que nada podia fazer, que era inútil, que ele jamais seria preso, que o móvel não estaria mais no lugar em que entregue, etc. Revoltado, meu irmão resolveu ir até Ribeirão Preto. 

Lá, foi para uma delegacia. "Não é da nossa competência senhor. Favor dirigir-se a da rua tal." Na outra: "Estamos em greve. Não podemos fazer nada, nem boletim de ocorrência". Estamos trabalhando apenas em caso de flagrante".

Como último recurso, foi até a Polícia Militar. O atendimento era melhor. Interessados, os políciais realizaram diligências para a captura do criminoso. Disseram que há anos tentavam prendê-lo, sem sucesso, e, agora, a oportunidade, depois de inúmeros mandados de prisão vencidos, novamente se fazia presente com a denúncia que meu irmão lhes levava. 

É importante relatar que, neste meio tempo, o estelionatário já havia ligado para meu irmão, pedindo-lhe dinheiro antecipado da comissão, para a conclusão do contrato. O depósito não foi feito, é claro. Então, ele tornou a ligar.

Neste momento, a armadilha já estava armada: meu irmão disse que tinha feito o depósito. Ele voltou a dizer que o dinheiro não estava na conta. Meu irmão comprometeu-se a ligar para o banco para saber o que havia acontecido. Disse-lhe que o problema era na agência de Ribeirão Preto. "Não pode ser, isto nunca aconteceu antes", disse o estelionatário. "Então, você me passa um número de fax, que eu estou com o comprovante do depósito em mãos."

O sujeito esperto não só passou o número do fax (de uma tabacaria) como foi pessoalmente buscá-lo. Nesta hora, foi preso em flagrante pelos militares.

Na delegacia da polícia civil, o inspetor, o advogado do criminoso, os policiais militares e meu irmão estiveram reunidos.

Primeiro, o inspetor propôs um acordo para que o caso não fosse apresentado à delegada, o que foi recusado pelo meu irmão, depois de muita insistência. Em seguida, em reunião exclusiva entre o inspetor, o advogado e a delegada, esta entendeu que não era caso de flagrante delito, determinou que soltassem o preso, e que meu irmão fosse resolver isto em Guarulhos, lugar onde reside. Recusaram-se, até mesmo, a lavrar boletim de ocorrência sobre o ocorrido. Meu irmão ligara para um advogado da região, recomendação de um grande juiz aposentado, conhecido da cidade e, dizem, bastante influente. Ele limitara-se a questionar: "Mas ele vai pagar à vista ou parcelado". Meu irmão riu. E eu também.

Na polícia militar, os agentes lavraram boletim de ocorrência, no qual relataram os fatos, inclusive, o entendimento da delegada que a dispensara de formalizar o flagrante. Disseram, no entanto, que o documento seria enviado para a residência de meu irmão na semana seguinte.

Hoje meu irmão recebeu o boletim. Nele, narra-se que o fulano de tal é negociante e pretendia fechar um contrato com a empresa de meu irmão, o que não deu certo, em virtude das exigências não aceitas por um dos contratantes. Trocando em miúdos: nada falaram sobre o flagrante delito, sobre a prisão do indivíduo, sobre a proposta de acordo, sobre o entendimento da ilustre delegada e, pior, deram a conotação para os fatos de que tudo não passara de uma tentativa frustada de um verdadeiro negócio.

Bem se vê como anda a ética neste paísinho de merda chamado Brasil.

Triste ainda nisto tudo é, vez e outra, ouvir pela televisão ou rádio pedidos à população para que depositem mais confiança em nossas polícias.  Triste ainda é saber que o salário que recebem vem do nosso bolso.

 

       



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 15h56
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O acaso

Há encontros que se dão em tempos descompassados. Ele a viu primeiro, em sua casa. Ela, um ano depois, numa festa.

Era noite. As amigas haviam ido a um restaurante, e ela preferiu seguir para uma festa. Detestava convites feitos por conveniência ou comiseração. Lá permaneceria até às duas da manhã, quando então as amigas retornariam para buscá-la. Num canto do salão, recostada à parede, fumando um cigarro, pensava em quão injustas e egoístas eram as pessoas e o mundo. Tinha a idade de quem, ante o menor desapontamento, sofria dores celestiais. 

Ele adentrou o salão e resgatou-a da fossa onde se encontrava mergulhada. Nunca um desconhecido havia-lhe provocado desse modo. Na forma de um relâmpago, viu o futuro cair sobre o presente, dando-lhe a certeza de que ele lhe era íntimo e importante.  

Ele não a aceitou, assim, prontamente. Não por medo de um afeto nascido em circunstâncias tão imprevistas. Ocorre que, há um ano, este rapaz havia sido ignorado, e, aberta a ferida em seu orgulho, a abençoada vingança viera em boa hora, pensava. Para zerar alguns ressentimentos há sumidouros que o valem; já outros, nenhum.

Depois de permanecer horas sem fitar-lhe os olhos, ao final, aproximaram-se e passaram a conversar. As palavras em meio ao som alto do lugar traziam-lhe antes sensações do que significados.  

    

 

 

 



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 19h21
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Carlos Heitor Cony, uma vez em entrevista, declarou a diferença entre Mozart e Beethoven. Segundo ele, enquanto se ouve Mozart, é possível fazer outras coisas, já, para ouvir Beethoven, é inevitável parar. 

Hoje desenterrei uma música antiga, linda, de Nick Cave, que agora ouço e confesso mal conseguir escrever estas poucas linhas.

 

 



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 17h12
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Li no site da uol um trecho do livro "Garota Perfeita", de Mary Hogan, e, de cara, identifiquei-me com a mãe da personagem principal, uma típica sofredora do que a ciência denomina de síndrome do pânico. Transcrevo-o para melhor compreensão:

"Por mais que eu viva, nunca vou esquecer o dia em que conheci a irmã de minha mãe.

Eu tinha 11 anos. Meus peitos não existiam, minhas sardas estavam fora de controle. Eu usava meu vestido de verão favorito sem perceber o quanto estava ridícula. Até eu chegar lá... à cidade que mudou a minha vida.

Mamãe e eu viajamos de carro durante horas. Na realidade, foram umas quatro, mas pareceram umas quarenta. Saímos de nossa casa velha e decadente, em Delaware, na manhã de véspera de Quatro de Julho. Lembro-me da data porque considero esse dia também como o da minha independência -- o dia em que descobri quem eu estava destinada a ser.

- Ponha o cinto de segurança, Ruthie -- disse mamãe naquela manhã.

- Já coloquei.

- Está ajustado?

- É tamanho único.

Mamãe suspirou.

- Ok, então. Tranque a porta.

- Está trancasa

- E feche a janela.

- Por quê? Estou com calor.

Mamãe me olhou, boquiaberta.

- Porque alguma coisa pode entrar pela janela, vindo da estrada.

Agora fui eu que a olhei, boquiaberta.

- O que, por exemplo?

- Um inseto, um pedaço de cascalho, um caco de vidro. Feche-a, Ruthie.

Revirei os olhos...e fechei a janela. Ainda nem havíamos deixado o quintal de casa.

- Está pronta? - ela perguntou.

- Mal posso esperar - respondi.

E lá fomos nós. Mamãe atravessou Boyds Corner e Bear, depois de Wilmington. Ela se mantinha na pista da direita e mordia o lábio a cada vez que um carro aparecia na rodovia. Comemos pretzel, ouvimos músicas antigas e estúpidas no rádio. A cada dois segundos, mamãe empinava a cabeça e verificava o retrovisor.

- Aquele carro está se aproximando muito - dizia, reduzindo ainda mais a velocidade.

Engatinhamos pela divisa da Pensilvânia, por toda a extensão de New Jersey, parando uma única vez em Secaucus, para que mamãe pudesse se preparar para atravessar o túnel em Manhattan.

- Mãe! - exclamei, exasperada. - Já estamos quase lá!

- Não consigo deixar de pensar naquele filme do Sylvester Stallone - disse ela. - Aquele em que acontece uma explosão e todo mundo fica preso no túnel, que é invadido pela água. Os carros batem e as pessoas entram em pânico. Eu não quero apavorar você.

- Você não está me apavorando. Isso é só um filme.

- Só porque um fato é ficção não quer dizer que não possa se tornar realidade.

Suspirei alto e olhei pela minha janela fechada.

- Acho que tem uma ponte.

- Uma ponte? Então você não viu aquele filme do Schwarzenegger?

Mesmo com 11 anos, eu sabia que minha mãe era maluca. Como daquele vez em que os pais de Celeste foram no cruzeiro mais maneiro de todos e tudo que minha mãe conseguiu dizer foi: "Alôôô! Será que a palavra Titanic não significa nada pra essa gente?"

Um dia, quando perguntada, respondi não ser medrosa. Disse que, nesta vida, de apenas uma coisa temia: de tragédia. Meu interlocutor sorriu.

Nem sempre fui assim.

A psicologia defende que, quando conhecemos a origem de um problema, damos um passo na direção da solução. Se esta teoria está correta, não sei. Sei que, para mim, não funciona, pois, mesmo ciente da raiz desse mal (um acontecimento extraordinário, que marcaria minha vida para sempre), não consigo deixar de ver tragédia em tudo.

Pensando sobre o medo, lembrei-me do poema de Alexandre O' Neill:

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos.

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer).

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 22h16
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Enfim, férias. Para uma autêntica workhaholic, adivinha-se que, nos primeiros dias de puro ócio, busquei comprometê-los, por completo, com insignificâncias. Sentir-me ativa é, por demais, prazeroso; difícil é parar, enquanto o mundo inteiro corre. Porém, passadas algumas semanas, obriguei-me a refletir, afinal este é o motivo pelo qual implorei férias. 

Conforme havia dito, descobri-me insatisfeita em minha profissão. Não foi uma descoberta assim, repentina. Existiam os sinais, aqueles a que a gente nunca presta atenção mesmo, porque é mais fácil continuar do ponto onde se está.

Em adolescência, quando tardiamente me esbarrei no prazer da leitura, cogitava de apreender humanas. Gostava de história, português, literatura, filosofia, sociologia. Minha idéia inicial era cursar algo que me propiciasse uma formação a mais completa possível. Como cheguei no Direito? 

Disse que adquiri o hábito de ler literatura. Antes, porém, interessavam-me as biografias dos autores. Machado de Assis, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Vinicius de Moraes, dentre outros, por coincidência, ou não, acabaram no curso de Direito, e, desde então, para mim, nasceu a idéia de que este curso formava escritores. Veja, portanto, que, antes de ser juíza e desejar a abolição das injustiças na face da Terra, no íntimo, era a escrita que eu cobiçava. 

Não foi nada fácil dar-me conta desta verdade. No direito, escrever é fundamental, e, ainda que limitada pelos jargões e pelo "modus faciendi" de cada peça técnica, a esmola alimentava-me, compreendem?

Decepções, seguidas de mais decepções, provocaram em mim o propalado estado cartático. Hoje, relativamente em paz, não posso mais adiar o caminho que anseio por trilhar. 

O mais tormentoso do início é sempre a espera. Infelizmente, deixei passar o período de inscrição para o vestibular do próximo ano (a dúvida, naquele momento,  persistia). Agora que alcancei a certeza, quero ontem o que me foi sonegado anos a fio. Quero aprender e desenvolver o que, em mim, fala mais alto. Não sei onde vou chegar, apenas pretendo ir. Talvez, no curso do que ora nasce, conclua pelo vazio, pela impotência, pela rejeição, pela frustração. Nada, entretanto, me afasta do objetivo primeiro: retratar, em linhas e entrelinhas, a humanidade, e o sonho particular e universal que dela temos.   

 

  



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 17h32
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Quase férias

Estou prestes a sair de férias. Conto os dias. Não é só a possibilidade de descansar que me anima, mas também a de me resolver. Passo por uma crise existencial, há tempos, postergada. Nos trinta dias de completo ócio, aproveitarei para pensar, escrevendo. O que ser, o que fazer? Os adolescentes me compreenderiam.

Queria saber se outros balzaquianos como eu sofrem do mesmo mal. Tortura, redobrada, aliás, quando comparada à dos adolescentes, porque, para eles, aceita-se a dúvida, mas, para alguém que atingiu os trinta anos, isto é imperdoável. Nesta fase da vida, espera-se pela estabilidade profissional, pelo sucesso, pelo planejamento do fim.

E eu, agora, querendo desconstituir tudo...tomar atalho que me leve para outros cantos...

Tenho um bom emprego - sou funcionária pública federal concursada -, ganho razoavelmente bem, ocupo cargo máximo de confiança dentro do Órgão, ou seja, preencho todos os requisitos que alguém poderia supor à satisfação profissional, mas, confesso aos berros, não estou satisfeita!

Tivesse eu um pouco de juízo, abandonava tudo, saia à procura do que me apraz. Porém, sou louca, esquizofrênica e socialmente adestrada. Trabalho feito workaholic, para me livrar do tormento da consciência a sussurrar em meus ouvidos o quão inútil e idiota é o meu mister.

Todos os dias leio - minto, folheio - diversos processos judiciais. Na maioria, idênticos: mula (pessoas que são cooptadas por organizações criminosas para a realização do tráfico de drogas mediante o pagamento de R$ 500,00 a R$ 1000,00) presa no aeroporto, quando prestes a embarcar com a droga; gente que não recolhe a previdência dos empregados aos cofres públicos; menino que repassa nota falsa na quitanda; gente que constroi rancho à beira de rio (área de preservação permanente). No cível, pedem que não sejam despejados do imóvel, adquirido pelo SFH, porém não pago, ou que os depósitos de FGTS sejam corrigidos por índices que, durante os diversos planos econômicos adotados pelo país, foram excluídos pela CEF, os chamados expurgos inflacionários.

Depois de um longo tempo, falando sobre isto, a banalização é inevitável.

Se as pessoas conhecessem a realidade do Judiciário, iam reclamar com o Executivo. Por mais que chamem à responsabilidade cada um dos Poderes, na medida de suas competências, pretender o milagre, com o dom alheio, é coisa fora de cogitação e que me deixa irresignada.

Bem, vou ficando por aqui, porque o trabalho me chama. Em breve, porém, volto a escrever sobre meus conflitos. Infelizmente, durante alguns dias, os leitores conviverão com os relatos tormentosos sobre o meu trabalho, mas, ao final, espero conseguir resolvê-los ou, no melhor jeitinho brasileiro, superá-los.

 

 

 

 



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 10h22
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Móveis planejados

Um pouquinho de propaganda não faz mal a ninguém, principalmente quando o propagandeado é o próprio irmão. Tempos difíceis estes. Com a enxurrada de coisas que são publicadas e divulgadas pela internet e outros canais de comunicação, está cada vez mais penoso chegar ao outro. E nós que pensávamos que a internet estreitaria as comunicações....

Bem, o fato é que a fábria e loja de meu irmão, talentosíssimo, chama-se LD FURNITURE. O site é www.ldfurniture.com.br. A empresa faz móveis planejados de altíssima qualidade (não estou sendo suspeita aqui, ok?). Não são aqueles móveis que lojas famosas fazem, por exemplo Dellano e companhia limitada, do tipo modulado, ou de aglomerado ou MDF, que, depois de alguns anos, de muita umidade, vão, literalmente, por "água abaixo". São movéis refinados, feitos de materiais nobres, e o que há de mais moderno, em acabamento e ferragens. São todos feitos sob medida, e com design que o cliente livremente escolhe, ou, se preferir, solicita, sem custo adicional, ao decorador da empresa que crie algo exclusivo ao ambiente, com o melhor aproveitamento possível dos espaços. A empresa faz venda on-line, facilita no pagamento, e atualmente passa por um processo de exportação dos produtos. Aliás, esta é outra constatação do absurdo: brasileiro, de um modo geral, adora comprar porcaria. Prefere pagar baratinho por aqueles móveis do Peg e Faça ou das Casas Bahia, que, todo mês, vão soltar alguma prateleira ou emperrar alguma porta, do que pagar mais por um produto pra vida toda. E nem se diga que a diferença toda consiste no fato do estrangeiro ter mais dinheiro do que o brasileiro. Não falo da gigante classe pobre que sequer pode comprar comida. Refiro-me àqueles que têm apartamentos bons, grandes, valiosos, carros importados na garagem...Como se vê, tudo é uma questão de escolha das prioridades e da visibilidade...



Escrito por Mirella de Almeida Teles às 09h32
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